Desenvolvendo rotinas de membros

Quando o jornalismo responde a necessidades de uma comunidade e é criado com a participação das mesmas, então recebe o nome de jornalismo engajado. Quando feito de forma consistente, ele se torna uma verdadeira criação conjunta.

Embora o jornalismo engajado tenha se tornado uma prática muito difundida, a maioria dos veículos ainda se esforça para conseguir evoluir de iniciativas e projetos ocasionais para processos capazes de repetição, que inserem a criação conjunta na cultura da organização. O MPP enfatiza rotinas porque — em uma variação do mantra“aquilo que é medido, é feito” — o que se torna rotina, também se torna uma cultura. 

O jornalismo engajado não se restringe a projetos únicos, mas é isto que tem acontecido na maioria dos lugares neste momento. É por isso que esta seção se concentrará em abordar as rotinas de membros: os fluxos de trabalho que conectam os membros do público ao jornalismo e às pessoas que o produzem de maneira consistente. 

As rotinas de membros são uma parte crucial de sua estratégia para desenvolver o seu programa de membros. Elas contribuem para a força de um de programa de membros ao:

• Ajudar a expandir o programa, porque os membros engajados do público têm maior probabilidade de se converterem e aderirem ao programa;
• Fornecer feedback constante e informal aos jornalistas, o que torna o jornalismo mais “aderente”;
• Aprofundar o relacionamento dos membros com a organização, tornando os membros mais “aderentes”.

As rotinas de membros também possuem valor financeiro, seja nas receitas geradas ou nas contribuições não monetárias. O MPP percebeu que esses benefícios também são válidos para meios de comunicação baseados em assinaturas ou em doações que também estabelecem rotinas de membros.

Mas se você deseja que os membros do público aceitem seus convites para participar, você deve criar oportunidades desejáveis de participação. Essas oportunidades também precisam ser tecnicamente viáveis e exequíveis considerando os recursos disponíveis. Quando todas as três necessidades são atendidas, as rotinas de membros — uma inovação em como o seu jornalismo é produzido — enraízam-se no público.  

A equipe de pesquisa do MPP não se aprofundará em como fazer projetos com seus membros, também conhecidos como projetos de jornalismo engajado, porque você pode encontrar informações sobre isso em outros lugares. Em vez disso, o MPP o orientará de modo a possibilitar a identificação de oportunidades de participação que são desejáveis, viáveis ​​e exequíveis ​​— fazendo com que possam ser potentes e replicáveis —, e então o ajudará a desconstruí-las, para que assim possam ser transformadas em rotinas.

Meios de comunicação que oferecem caminhos flexíveis de participação estão bem posicionados para alcançar sucesso em suas empreitadas. Esses veículos geralmente têm várias necessidades e fazem “pedidos” explícitos ao público, com abordagens flexíveis sobre como, quando e em que grau os membros podem participar. Isso realmente aprofunda a fidelidade. Vista dessa forma, a participação torna-se parte de uma estratégia de fidelização e retenção, que merece ser medida com tanto rigor como quando se mapeia a jornada de alguém de visitante do site a membro pagante. Como o pesquisador JP Gomes disse ao MPP, “é possível que a participação medida em horas, em vez de dólares, se relacione a como as pessoas se sentem conectadas a uma organização.”

As rotinas de membro não precisam estar diretamente ligadas à produção jornalística. O objetivo delas pode ser criar uma comunidade a partir do seu jornalismo, como o DoR faz com os seus programas de jornalismo ao vivo na Romênia, a KPCC faz com o UnheardLA em Los Angeles e a Radio Ambulante faz com seus clubes de escuta. Oportunidades de participação criativa como essas podem ser surpreendentes e libertadoras tanto para os meios de comunicação quanto para o público.

Se você não sabe por onde começar, peça aos seus membros para preencherem uma pesquisa de opinião. Ser voluntário em uma pesquisa de audiência é uma das formas mais simples de participação que você pode oferecer. É algo valioso por si só, mas também pode ser o primeiro passo em um caminho de maior participação. Você sempre precisa de pessoas para ajudá-lo respondendo a uma pesquisa ou concedendo uma entrevista. Se alguém lhe perguntar: “O que posso fazer além de dar dinheiro?”, a resposta mais simples geralmente é “Diga-nos o que você acha disso” ou “Preencha esta pesquisa”. 

Se você é novo no conceito de jornalismo engajado ou no de jornalismo com ajuda dos membros, a introdução à prática da Gather é um bom lugar para começar. Abaixo estão seis lugares onde você pode encontrar guias, estudos de caso e exemplos de projetos de jornalismo engajado. 

• Gather, uma comunidade online para o jornalismo engajado que inclui estudos de caso e bate-papos relâmpago
Better News, uma coleção de estudos de caso e de pesquisas do American Press Institute 
The Engaged Journalism Accelerator, que inclui estudos de caso e guias 
• A coleção de estudos de caso e de guias da Hearken
Engagement at KPCC, site onde a Southern California Public Radio documenta o seu trabalho de jornalismo engajado
•  The Participatory Journalism Playbook, um guia de campo sobre como ouvir e reportar junto com comunidades
 
Se esta seção o motiva, nós o encorajamos a ler o relatório de agosto de 2019 do  Membership Puzzle Project “Fazendo um jornalismo mais integrado com os membros”. (Inglês, espanhol)

Por que os membros do público participam?

A partir da análise de uma pesquisa de audiência com centenas de apoiadores de organizações de notícias, o Membership Puzzle Project encontrou seis motivações principais para a participação — em outras palavras, o que eles esperam oferecer:

Ilustração de Momkai

Compreender cada motivação ajuda a identificar boas oportunidades de participação. E boas oportunidades de participação são aquelas que geram ações repetidas várias vezes, tornando-se rotina.

  • Curiosidade e aprendizado: membros do público que são motivados por sua curiosidade participarão para aprender algo novo, seja um novo conhecimento ou uma nova habilidade. O City Bureau aproveitou o desejo dos moradores de Chicago de aprenderem sobre o governo local e de fazerem com que os políticos prestem contas e criou o seu programa Documenters, que treina e paga pessoas locais para monitorarem o governo, documentando reuniões públicas. Desde janeiro de 2019, o Documenters cobriu mais de 950 reuniões públicas em Chicago.
  • Mostre um superpoder: Os membros do público que são motivados pela oportunidade de contribuir com seus conhecimentos têm uma habilidade útil e percebem uma oportunidade de empregá-la para tornar o seu trabalho melhor. Isso pode variar desde conhecimentos acadêmicos especializados à coleta e análise de dados até experiências de vida. Quando o setorista de energia do De Correspondent Jelmer Mommers começou a cobrir as grandes empresas de petróleo, ele pediu a funcionários da área que o ajudassem a entender o setor. Dezenas de funcionários entraram em contato, e algumas das informações recebidas alimentavam reportagens. Os relacionamentos culminaram com Mommers recebendo uma caixa de documentos internos da Royal Dutch Shell que provavam que a Shell já reconhecia internamente o papel dos combustíveis fósseis nas mudanças climáticas há décadas, apesar de publicamente questionar esta conexão. Este ciclo no qual você compartilha em que está trabalhando, pede ajuda aos leitores e utiliza esta ajuda em matérias perpassa toda a redação e é parte integrante do jornalismo feito pelo De Correspondent.
  • Voz: Membros da audiência que são motivados pela oportunidade de compartilharem uma palavra, uma opinião, uma experiência ou uma pergunta que eles acham que é importante. Um exemplo disso é o Lost Mothers Project, da ProPublica, que investigou os perigos do parto nos EUA “Você conhece alguém que morreu ou quase morreu no parto? Ajude-nos a investigar”, escreveu a equipe da ProPublica. Ao reconhecer o desejo das famílias enlutadas por uma reforma que pudesse evitar futuras mortes ​​durante o parto, a ProPublica coletou cerca de 5 mil histórias de violências sofridas por mães. Projetos investigativos financiados coletivamente estão no centro do jornalismo investigativo da ProPublica, e eles desenvolveram um modelo para avaliar cada oportunidade. 
  • Transparência: Os membros do público são motivados pela oportunidade de obterem informações privilegiadas e desejam entender como e por que o jornalismo é produzido. A cooperativa britânica de notícias Bristol Cable aproveita essa motivação todos os anos com sua assembleia geral anual, na qual os proprietários-membros participam para opinar sobre decisões estratégicas. Certo ano, os proprietários-membros ajudaram a Bristol Cable a redigir uma “carta de propaganda ética” com o objetivo de ajudar a redação a avaliar se futuras pesquisas de propaganda cumpririam os padrões éticos da comunidade. 
  • Paixão: Os membros do público que são motivados pela chance de demonstrar amor pela sua missão, têm orgulho da afinidade com a sua organização e desejam que as pessoas saibam disso. Eles também podem ser motivados por uma oposição veemente a algo que percebem acontecer no mundo, e almejam ter a oportunidade de fazer algo para mudar isso. O Zetland aproveitou essa motivação de forma poderosa em sua campanha para conseguir membros. A campanha trouxe 3.500 novos membros, elevando o total de membros do Zetland a 14 mil membros — ponto em que o veículo se tornou financeiramente sustentável. Eles vão replicar a estratégia novamente em breve.
 

Como o Zetland transformou seus membros em embaixo poderosos

O Zetland enfrentou uma dura verdade: eles ainda não eram lucrativos e o tempo estava se esgotando. Seus membros poderiam ajudar?

  • Comunidade: os membros da audiência que são motivados pela chance de fazer parte de algo maior do que eles próprios e desejam ver e sentir a comunidade em seu trabalho. A Radio Ambulante explora essa motivação, incentivando e orientando os membros para que sejam os anfitriões dos “Clubes de Escuta”, grupos que se reúnem para escutar seu popular podcast de narração de histórias. Os ouvintes da Radio Ambulante estão espalhados pelos Estados Unidos e pela América Latina, e os clubes de escuta ajudam a organização a criar uma verdadeira comunidade em torno de seu trabalho, ajudando os ouvintes a se conhecerem entre si.
 

Como a Radio Ambulante criou rotinas para construir uma comunidade

Ao capacitar seus ouvintes para organizar clubes de escuta, a Radio Ambulante ampliou o alcance de sua comunidade.

Se você ainda não sabe o que motiva os membros do seu público, não pode criar caminhos de participação para eles. Você deve fazer pesquisas de audiência. Vá para “A condução de pesquisas de audiência.

Como identificamos oportunidades de participação do público?

Existem três estágios para responder à pergunta sobre quais caminhos de participação são adequados para você e para os membros do seu público. 

  1. Encontrar o ponto de intersecção entre as motivações do público e as necessidades da redação. 
  2. Escolher a etapa do processo de reportagem em que isso acontecerá. 
  3. Escolher quais canais você usará para oferecer o caminho de participação

A interseção entre as motivações do público com as necessidades da redação

Pense nas motivações do seu público conforme explicado acima. Em seguida, considere as necessidades de sua redação. As quatro necessidades de redações que o Membership Puzzle Project ouve mencionadas com mais frequência são: criar um trabalho de alta qualidade, encontrar públicos que se beneficiarão com este trabalho, identificar ideias adicionais que sejam relevantes para a sua missão e ser financeiramente sustentável. 

A meta é encontrar os pontos onde as motivações do público e as suas necessidades se cruzam, e então avaliar o que será necessário fazer para que a sua organização os envolva com entusiasmo e responsabilidade. 

Você pode atingir essa meta perguntando: O que nosso público sabe que nós não sabemos? Quais tarefas que estão além da capacidade de nossa mão de obra os nossos membros poderiam considerar valioso aprender? Se você já conhece as motivações dos membros do seu público, use a planilha do MPP para encontrar caminhos de participação que se aproveitem dessas motivações. 

Como engajar seu público
Baixar

O Membership Puzzle Project identificou 25 tarefas típicas de uma redação que o público pode estar motivado a fazer com você. Abaixo, essas são classificadas por motivação (embora muitos dos exemplos possam facilmente ser associados a mais de uma motivação). Você pode consultar a pesquisa original para ver exemplos específicos de meios de comunicação que adotaram cada tarefa.

  • Eu quero aprender algo novo.
    • Treinamento e aprendizagem
    • Coleta de dados
    • Revisão de dados
  • Quero contribuir com meus conhecimentos.
    • Contribuições com desenvolvimento de códigos 
    • Revisão técnica 
    • Tradução de línguas
    • Contribuições com habilidades profissionais necessárias 
  • Quero me manifestar e ser ouvido 
    • Como fonte
    • Como alguém que compartilha experiências de vida 
    • Testador de produtos
    • Fornecedor de histórias orais 
    • Em conselhos de usuários e fóruns comunitários
    • Como colaborador de conteúdo jornalístico original 
    • Contribuindo com dicas 
  • Eu quero informações internas sobre furos e saber mais sobre o seu processo
    • Criador colaborador de normas éticas
    • Eleitor em decisões da organização 
    • Financiador
  • Quero mostrar um pouco do meu amor porque este assunto / a sua missão pública é importante 
    • Embaixadores da marca 
    • Rastreando e reportando tendências
    • Guias e anfitriões
  • Quero fazer parte de algo maior 
    • Moderadores 
    • Orientando novos membros 
    • Programadores de eventos e voluntários 
    • Encarregados por contas em redes sociais 
 

Como a Maldita recorre os “superpoderes” de seus membros para a checagem de fatos

A Maldita afasta os trolls que tentam prejudicar o seu fact-checking pedindo para que as pessoas anexem provas de suas credenciais.

Etapas do processo de reportagem 

Você também pode descobrir oportunidades para a participação do público identificando  fases do processo de reportagem em que essa participação poderia acontecer. Pensar sobre a participação dessa forma pode ajudá-lo a descobrir como organizar seus fluxos de trabalho e de equipes. 

Planning stages
(audience listening)
Research & reporting
(co-reporting, offering reporting tips or source assistance)
Editing & fact-checking
(proofreading a draft)
Post-publication
(helping distribute a work of journalism to the people who really need it)

O padrão para a maioria dos veículos é envolver os membros do público na etapa pós-publicação. Mas os três primeiros estágios são essenciais para uma verdadeira criação conjunta, porque é nestas etapas que os membros  podem moldar o trabalho de forma significativa. O MPP descobriu que isso os torna mais propensos a ajudar também durante o estágio de pós-publicação. As pessoas gostam de exibir as coisas que ajudaram a tornar possíveis.

A ProPublica usa este modelo para engajamento em reportagem com os seus jornalistas para ajudá-los a avaliar as oportunidades de participação do público. Usar uma avaliação rigorosa como essa durante a fase de planejamento de uma matéria pode ajudá-lo a se preparar para o sucesso em etapas posteriores. 

Se você já promoveu oportunidades de participação no passado, o Membership Puzzle Project  o incentiva a examinar em quais fases do processo de reportagem elas aconteceram, como uma maneira simples para avaliar se você está de fato envolvendo significativamente os membros do público. Se a maioria de suas oportunidades de participação está acontecendo no estágio de pós-publicação, considere como você pode começar a propiciar a participação nas etapas anteriores, quando os membros do público podem moldar o seu trabalho de forma mais expressiva.

 

Como o Krautreporter usa pesquisas de opinião para engajar, cooperar e crescer

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Isso pode exigir o envolvimento de diferentes pessoas no processo de planejamento. Por exemplo, deixar a participação do público como sendo função só do editor de mídias sociais irá fazer com que essa participação se concentre fortemente na fase de distribuição pós-publicação. 

Os canais disponíveis

Uma vez que você identificou qual caminho de participação você oferecerá e em qual momento do processo de reportagem isso vai acontecer, você deve descobrir como irá fazer o convite a essa participação e por meio de qual canal. 

A resposta pode ser evidente para o veículo, mas se não for, abaixo está uma lista de canais que o Membership Puzzle Project viu veículos de notícias utilizarem para convidarem à participação. Se você não sabe por onde começar, concentre-se nos canais que sua comunidade já usa regularmente — se quiser que as pessoas participem, você precisa encontrá-las lá onde elas estão.

MétodoÚtil paraNão útil paraEtapa
Pesquisa de opiniãoObter feedback sobre um assunto específico; solicitar opiniõesColetar feedback com respostas abertasPlanejamento, pesquisa e reportagem
Chamado
(via newsletter ou mídias sociais)
Solicitar um tipo específico de informaçãoSolicitar opiniõesPlanejamento, pesquisa e reportagem
VotaçãoMedir o interesse do público em um assunto versus outrosObter feedback que não pode ser classificado Planejamento, pesquisa e reportagem
Evento casualMedir os sentimentos do público por meio de conversas abertasObter feedback sobre um assunto específicoPlanejamento, pesquisa e reportagem, pós-publicação
Evento organizadoAmpliar o alcance do jornalismo; aumentar a conscientização sobre a sua organizaçãoColetar feedback, desenvolver novos relacionamentos Pós-publicação
TreinamentosAumentar a capacidade de sua redação e ao mesmo tempo aprofundar o relacionamento com os participantesTrabalho de rotina que não é educacional para os participantes; treinamento em habilidades de que você raramente precisaPlanejamento, verificação de fatos e edição
Commenting and online conversationAjudar os participantes a se “encontrarem”; avaliar o sentimento do público sobre um assunto específico Redações que não têm uma comunidade online saudável e / ou capacidade de moderaçãoPlanejamento, pós-publicação

Se a abordagem do Membership Puzzle Project não se adequar à estrutura de sua redação, considere o “Kit de Ferramentas de Participação Diária” do The New Citizenship Projeto no Reino Unido. Criado para orientar cooperativas durante o processo de identificação de oportunidades de participação mais profundas para proprietários, o The New Citizenship Project classifica as oportunidades em “modos” de participação: contar histórias, coletar dados, compartilhar conexões, contribuir com ideias, doar tempo, aprender habilidades e fazer inovações no financiamento coletivo.

 

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A única maneira para o Correctiv obter dados sobre os proprietários de imóveis em Hamburgo era pedindo aos leitores que enviassem seus própr

Como podemos oferecer pedidos de participação adequados?

O cultivo da participação do público começa a partir da oferta de pequenas oportunidades que formem um hábito de envolvimento com a sua organização, de modo que os membros se sintam mais do que apenas consumidores do seu jornalismo. 

É importante combinar os seus pedidos de participação com o nível de relacionamento que os membros do público têm com o seu veículo e com o tempo que eles têm disponível. À medida que seu relacionamento se aprofunda, a profundidade de sua participação também pode se aprofundar — ou talvez não. Você precisa oferecer caminhos flexíveis para a participação, se quiser ter um grupo diversificado de participantes. 

Algumas organizações de notícias atendem a essa necessidade simplesmente listando as várias maneiras pelas quais alguém pode participar com o seu site e deixando o público escolher, como faz o The Local Europe. Eles oferecem aos membros do público a oportunidade de assumirem o controle da conta do The Local Europe no Instagram, de contribuírem para uma série sobre carreiras profissionais ou de apenas falarem com alguém sobre o site. 

Esse método funciona, mas as oportunidades de participação tornam-se ainda mais poderosas quando você direciona o seu pedido. À medida que você conhece os membros mais engajados do seu público, você desenvolve a habilidade de conseguir fazer a pergunta certa à pessoa certa. 

O MPP descreve essa jornada de participação progressiva como uma escada que os membros do público sobem conforme participam mais profundamente de seu trabalho, estabelecendo uma rotina nesse processo. As formas mais simples de participação estão no degrau inferior. Sua escada pode ser organizada de acordo com a quantidade de tempo, conhecimento, esforço ou experiência necessária para a participação em cada degrau.

Poucas redações aplicaram esse nível de rigor para entender como os membros de seu público se envolvem além do apoio financeiro, então o MPP se voltou para movimentos dirigidos por membros em áreas fora do jornalismo em busca de ideias em um relatório de 2019

Aqui está um exemplo da ciência cidadã, que é um tipo de pesquisa científica que é pelo menos em parte conduzida por não cientistas. Se a ciência cidadã oferecesse apenas oportunidades de participação que só cientistas treinados pudessem prover, o movimento perderia rapidamente o fôlego. Em vez disso, eles oferecem diversas oportunidades, incluindo coletas de dados simples no “Nível 1”, que quem tem um conhecimento científico mínimo pode fazer. As pessoas podem progredir para níveis mais altos obtendo treinamento ou permanecer no Nível 1.

A “escala de participação das contribuições científicas do cidadão”, cortesia do professor Muki Haklay da Universidade de Londres.

Digamos que você trabalhe em uma redação que está interessada em aproveitar a experiência de seus membros para melhorar o seu jornalismo. Sua escada de participação pode ser parecida com esta:

  • Degrau inferior: Pedir aos membros do público que completem uma pesquisa de opinião sobre as suas áreas de especialização e no que eles estão mais interessados ​​(10 minutos).
  • Degrau intermediário: Pedir aos membros do público com experiência relevante que respondam a uma pesquisa mais detalhada ou conversem com o seu repórter para oferecer uma opinião sobre um assunto específico (30 minutos).
  • Degrau mais alto: Pedir a especialistas para revisar uma matéria antes da publicação, para serem painelistas em um webinário sobre um assunto, para participarem da seção de comentários abaixo da matéria respondendo a outras perguntas ou então para realizarem em conjunto a reportagem com o jornalista (3 horas ou mais)

Uma boa maneira de começar a construir a sua própria escada de participação é observar os tipos de participação que você já oferece e , em seguida, categorizá-los pelo nível de compromisso que cada modalidade de participação requer. Atribua as oportunidades de participação a degraus da escada e comece a manter o controle de quantos e quais membros do seu público participam em cada nível. Quando você tiver um pedido de alto comprometimento, você saberá a quem enviá-lo. Já quando quiser um número maior de participantes, também poderá identificar facilmente os pedidos para os níveis mais baixos na escada, que seriam adequados para possibilitar que as pessoas subam os degraus.

A Red / Acción, da Argentina, passou por um processo semelhante em 2020, antes de desenvolver um software que permitirá monitorar a participação do público em um sistema de Gestão de Relacionamento com o Cliente (CRM). A equipe do veículo identificou 21 tipos de participação que ofereciam, e então categorizaram cada um deles como sendo de dificuldade alta, média ou baixa. Eles usarão essas categorizações para garantir que estão frequentemente oferecendo oportunidades de participação baixa, bem como outras mais aprofundadas. 

Em outras palavras, não se deve espalhar a participação por todos os membros do seu público igualmente. Em vez disso, deve-se combinar os pedidos de participação significativa com aqueles que já demonstraram maior entusiasmo e participaram com profundidade, e, por outro lado, fazer pequenos pedidos de participação àqueles que você está tentando fazer subir em sua escada de participação.

Como transformamos um caminho de participação em uma rotina de membros?

Depois de identificar o caminho de participação correto para o seu público, você pode começar o processo de transformar esses caminhos em rotinas de membros — em outras palavras, em maneiras de repetir esses expedientes continuamente, até que se tornem parte do seu fluxo de trabalho normal. 

Passar de um projeto de participação para uma rotina de membros envolve estas etapas: 

  1. Identificar um caminho de participação que corresponda à motivação do público para participar e que também atenda aos seus objetivos, produzindo valor para o seu veículo 
  2. Formular uma versão com um Produto Mínimo Viável (MVP, em inglês) desse caminho 
  3. Testar o seu MVP e reunir dados ou insights 
  4. Avaliar o sucesso do MVP com uma retrospectiva 
  5. Adaptar o caminho de participação com base no feedback da retrospectiva
  6. Repetir as etapas 3, 4 e 5.

Você também vai querer conferir e revisar a sua rotina de tempos em tempos para garantir que ela ainda atenda aos seus objetivos.

Os MVPs não precisam ser perfeitos e devem ser desenvolvidos com as ferramentas que você já possui. Eles são a manifestação mais básica de sua ideia ou produto. Ao desenvolver um MVP, concentre-se naqueles que você acha que são os recursos mais importantes. Mantenha a lista bem restrita e bem focada. Você pode adicionar recursos adicionais depois de testar o seu conceito. 

Um MVP simples também é útil porque você pode facilmente estabelecer ligações entre as suas ações e os impactos observados. Em outras palavras, espera-se que um MPV simples tornará mais fácil para os membros entenderem o seu produto e mais fácil para você interpretar como as pessoas reagem a ele.

Adotar um enfoque de produto mínimo viável  para a participação do público é valioso para testar as suas suposições sobre como os membros do público desejam participar, antes de destinar recursos significativos para o seu projeto, especialmente se uma versão completa do caminho de participação exigir novas ferramentas ou novas funções. Nossa equipe de pesquisa oferece conselhos adicionais sobre como projetar um MVP na seção sobre  mentalidade de produto (Vá para “Como adotar uma mentalidade de produto?”). 

Quando o MPP usa a palavra “versão”, estamos nos referindo a uma “tentativa”. Aqui está um exemplo: se você está experimentando convidar membros para organizar e comandar eventos para outros membros, como o La Silla Vacia faz, cada evento organizado por membros, ou uma série de eventos organizados por membros, seria uma versão ou tentativa. Você deve conduzir uma retrospectiva após cada tentativa. 

Quando a Radio Ambulante decidiu lançar clubes de escuta para ajudar a construir uma comunidade mais forte em torno de seu podcast, ela começou com 20 pilotos liderados por membros da sua equipe. Eles usaram esses pilotos para resolverem os problemas e desenvolverem as suas melhores práticas. Depois de terem uma compreensão razoavelmente boa dos componentes essenciais para um clube de escuta bem-sucedido, eles criaram um manual para quem quisesse hospedar seu próprio clube e o distribuíram para ouvintes em todo o mundo, capacitando-os a realizarem o seu grupo de discussão em torno do podcast.

 

Como a Radio Ambulante criou rotinas para construir uma comunidade

Ao capacitar seus ouvintes para organizar clubes de escuta, a Radio Ambulante ampliou o alcance de sua comunidade.

A fase de avaliação é tão importante quanto a fase de elaboração. Uma retrospectiva bem feita após o lançamento de cada edição é o que o ajudará a avaliar aquilo que deu certo, aquilo que não deu, mas provavelmente dará certo se você fizer algumas alterações, e aquilo que não está funcionando e não deve ser repetido (Vá para “Como adotar uma mentalidade de produto” para melhores práticas e conselhos sobre como conduzir uma retrospectiva).

É útil nesta fase retornar aos seus resultados esperados e avaliar se o projeto de fato os realizou — em outras palavras, avaliar se o que você achou que seria bom realmente deu certo. Uma retrospectiva também pode ajudá-lo a identificar quem deve ser responsável por executar a rotina. 

Na fase de retrospectiva, você pode decidir não continuar com este projeto de participação específico, porque ele não funcionou suficientemente bem. Não há problemas nisso. Se essa for a sua conclusão, você deve passar algum tempo identificando quais fatores contribuíram para este resultado, e procurar pistas sobre o que tentar a seguir. Mas se o projeto fez muitas das coisas que você esperava, então ele é um projeto de alto valor, e vale a pena transformá-lo em uma rotina. Com o tempo, você conseguirá compreender quais tipos de participação são viáveis ​​para o seu veículo e quais são os públicos que você atende. 

O verdadeiro teste para saber se o caminho de participação se transformou em uma rotina de membros é verificar se esse caminho de participação se manteve mesmo em meio a notícias imprevisíveis ou de alta intensidade. O que acontece com a participação do público durante um momento de notícias quentes e inesperadas é o que separa as redações verdadeiramente voltadas para membros daquelas que veem o engajamento do público como uma estratégia principalmente de distribuição.

Como pedimos a participação do público?

Cultivar a participação do público começa com um pedido da sua redação para os seus leitores. Os chamados para a participação podem aparecer em newsletters, nas redes sociais, incorporados em artigos, como artigos autônomos ou apresentados como temas de conversa em eventos. Você deve escolher onde eles vão ser divulgados com base em onde você tem maior envolvimento do público. 

Convidar membros a compartilharem as suas perguntas e contribuírem com experiências são as maneiras mais fáceis para as redações começarem a pedir a participação do público. Mas é preciso prática para descobrir como escrever um convite que leve a respostas que podem virar ações concretas. 

Um exemplo de um chamado forte pode ser encontrado no Bay Curious, da rádio KQED, que se centra em um convite permanente aos leitores: “O que você quer saber sobre a Bay Area, a sua cultura ou as suas pessoas e você deseja que o Bay Curious investigue?” 

A Hearken, que trouxe a ideia da curiosidade do público como um pilar fundamental para um jornalismo mais forte em todo o mundo, compartilhou com o MPP o que torna este convite apropriado.

O convite deixa explícito que busca perguntas do público em vez de ideias ou de comentários. Começar com a frase “o que você quer saber…” ou “que perguntas você tem sobre…” deixa claro para o público que você está atrás de perguntas. E isso torna mais provável que os membros do seu público se aproximem de você por curiosidade e abertura, e não por uma questão de afirmação ou uma agenda pessoal. 

O convite define parâmetros. Nesse caso, os parâmetros são geográficos — as perguntas enviadas precisam ser sobre a Bay Area. Os parâmetros são importantes porque, se o seu convite for muito amplo, os membros do público talvez não respondam. Os parâmetros também podem inspirar ideias ou orientar a curiosidade em uma determinada direção. 

Ele deixa claro o propósito da pergunta. Seu convite deve comunicar o que você planeja fazer com as perguntas de seu público. O da KQED estabelece claramente que essas perguntas irão chegar aos repórteres da rádio e têm como objetivo estimular investigações.

Exemplos de convites muito amplos incluem: Sobre o que você está curioso? Sobre o que você quer saber? O que devemos cobrir? Sua estratégia de cobertura também deve definir as restrições à participação, e não o contrário — exceto se você realmente quiser definir qual é a sua agenda editorial por meio de crowdsourcing, e se estiver preparado para permitir que o público conduza esse processo. Um convite do tipo “o que devemos cobrir” abre a possibilidade de membros do público enviarem uma demanda que você precisará negar mais tarde. Também convida a respostas com base em causas pessoais.

A Hearken recomenda o teste beta de seu convite, apresentando-o a pessoas da redação (ou melhor ainda, a amigos, parentes ou desconhecidos). Se você pedir às pessoas que contribuam com informações, em vez de perguntas, aqui vai um exemplo instrutivo da ProPublica, que pediu aos seus leitores que ajudassem os jornalistas a rastrear discursos de ódio em grupos fechados do Facebook. O que chama a atenção neste exemplo da ProPublica é a especificidade do pedido: incluindo que tipo de informação precisam, por que precisam de ajuda para obtê-la e quem está em melhor situação para providenciá-la.

Cortesia da ProPublica

Mesmo se as respostas que você receber forem muito vagas para serem usadas como ideias para matérias ou não incluírem dados concretos, elas ainda podem ser úteis. Organizar todas as perguntas que você receber por assunto (ou seja, transporte público, educação, justiça racial) pode oferecer uma ideia de quais áreas temáticas despertam maior entusiasmo dos membros do público para contribuições, o que pode indicar oportunidades de cursos e eventos.Outra coisa importante a se ter em mente é que você não deve fazer pedidos a todos os membros de sua audiência durante todo o tempo  Consultar um grupo de uma dúzia de membros do público com conhecimentos sobre um assunto em questão trará resultados melhores do que perguntar a todos os seus leitores — e será mais administrável por uma equipe pequena. Muitas redações começaram a organizar bancos de dados das áreas de especialização dos seus membros, para que consigam assim contatá-los facilmente por e-mail quando precisarem de seus conhecimentos.

Precisamos de uma comunidade online?

“Um grupo de membros não é uma comunidade”, disse o fundador do projeto Coral, Andrew Losowsky. “Uma comunidade é um grupo de pessoas que se conhecem.”

Você pode ter um programa de membros sem ter uma comunidade — mas ter uma comunidade tornará o seu programa mais forte. 

Uma comunidade online vibrante pode lhe fornecer feedback constante e informal sobre quais são os interesses do público e agregar valor ao seu programa de membros. Também pode facilitar o processo de convite à colaboração. Mas as comunidades online também demandam muitos recursos e, sem moderação adequada, podem rapidamente se tornarem ambientes tóxicos. 

Uma comunidade online pode ser uma opção realista para o seu veículo se você tiver como instituir e aplicar diretrizes rigorosas, o que poderá diminuir a necessidade de moderação tão logo as normas da comunidade estejam bem definidas. Também pode dar certo se você dispor de alguém em sua equipe cuja função seja formar relacionamento com os membros da sua comunidade online. A nossa equipe de pesquisa verificou casos de veículos que conseguiram formar comunidades online no Facebook, no Slack, no Discourse e em suas seções de comentários.

 

Como o Página / 12 construiu uma comunidade na sua caixa de comentários

O Página/12 se aproveitou de leitores intelectualmente engajados para construir um programa de membros a partir de sua caixa de comentários.

Na companhia Black Ballad, do Reino Unido, uma comunidade exclusiva no Slack está no cerne da experiência oferecida pelo programa de membros. Este estudo de caso compartilha como a sua equipe de três pessoas administra esse grupo e o utiliza para incluir quem aderiu ao site no processo de tomada de decisões da redação.

 

Como a Black Ballad construiu um espaço virtual seguro para mulheres negras

Para a Black Ballad, a comunidade é a meta final — e isso fica evidente na maneira como pensam sobre tudo.

Confira os guias do projeto Coral, que incluem orientações passo a passo para organizar e formar a sua comunidade, estudos de caso e conselhos sobre a parte de moderação. Para explorar ferramentas para formar uma comunidade online, vá para “Os recursos tecnológicos para um programa de membros.

Para saber mais, recomendamos: 

Quais são os desafios para criar rotinas de membros?

As rotinas de membros produzem valor real para o seu veículo e para o seu público, mas não agregam valor inerente a todos os esforços do jornalismo e nem sempre são realistas. 

Elas exigem um tempo significativo de sua equipe. Trabalhar com estas rotinas demanda muita mão-de-obra. Você deve ser específico quando decidir onde e como vai investir os seus esforços direcionados a membro, e deve ter um plano para avaliar posteriormente se esses esforços valeram a pena; deste modo, no futuro você terá orientações que auxiliem suas decisões. Em “O que se perguntar antes de iniciar um projeto de crowdsourcing?”, a ProPublica compartilha quais questões de avaliação interna faz. A rádio KPCC, nos Estados Unidos, registra em seu Sistema de Gestão de Conteúdos (CMS) todas as matérias que surgiram a partir de uma pergunta do público, e estuda como elas se saíram após serem publicadas, para avaliar quais matérias tiveram melhores resultados.

As rotinas podem exigir mais tempo do que os membros do seu público estão dispostos ou são capazes de oferecer. A participação do público consome muito tempo, e possivelmente a oportunidade de participação que você concebeu demanda demais. Isso não significa que você precise desistir completamente da iniciativa, mas talvez seja necessário reduzir o tamanho do projeto, como fez  o El Tímpano, nos Estados Unidos, quando os participantes comunicaram que um conselho consultivo para a comunidade era um compromisso além do que poderiam fazer. No lugar do conselho, o El Tímpano passou a promover reuniões editoriais públicas trimestrais. 

As rotinas exigem capacidade de gerenciamento de projetos e de suporte para o trabalho em todos os níveis do seu veículo. Esta forma de trabalhar exige formas de colaboração que perpassam várias funções dentro da sua organização e também incluem colaboradores externos. Muitas organizações de notícias ainda estão estruturadas para produzir uma matéria desde a sua concepção até a sua distribuição, o que não é adequado para esse processo. Um repórter comprometido pode facilmente incorporar rotinas de membros à sua cobertura (veja a pesquisa do MPP sobre o que significa ter membros durante uma cobertura), mas levar rotinas de membros a toda a organização requer investimentos em todos os níveis.

Elas exigem habilidades sociais para as quais muitos jornalistas não receberam treinamento. As habilidades necessárias para cobrir as notícias de última hora são muito diferentes das habilidades necessárias para comandar um auditório ou entender o que motiva os membros da comunidade a participar. O DoR, na Romênia, trouxe especialistas para treinarem a sua equipe como facilitadores, moderadores, mediadores e ouvintes durante a sua transição para um programa de membros. 

Os leitores podem pedir demais. Às vezes, os leitores exageram. Eles entendem mal até onde o seu envolvimento é aceitável. Eles começam a achar que os seus repórteres são resolvedores de problemas pessoais, e começam a esperar que todas as matérias confirmem as suas opiniões. O seu veículo deve ter uma política institucional e oferecer treinamento sobre como lidar com essas situações.

Envolver-se profundamente com os membros do público pode ter um impacto emocional. Os coordenadores devem prestar atenção se um envolvimento tão profundo com os membros do público está afetando a equipe. A KPCC, em Los Angeles, recebeu milhares de perguntas durante o pico da pandemia do coronavírus, muitas delas sobre assuntos difíceis, como morte e desemprego. A KPCC criou escalas nas agendas dos produtores de engajamento para dar intervalos entre turnos emocionalmente intensos . 

Algumas oportunidades de participação podem entrar em conflito com as diretrizes sindicais. Se você trabalha em uma redação sindicalizada, há diretrizes claras sobre o que os voluntários podem fazer. De modo geral, você não pode trazer mão de obra gratuita para fazer algo que um membro da equipe faria normalmente. Sempre verifique com o representante sindical de sua redação antes de pedir a participação do público de uma nova forma.

As rotinas de membros exigem novas maneiras de monitorar seus membros. Veículos como o De Correspondent, a Maldita, o Página / 12, o Krautreporter e o Bristol Cable mantêm cadastros das áreas de especialização de seus membros para que possam contactá-los a qualquer momento. Cada um desses meios desenvolveu o seu próprio sistema: o Página / 12 construiu seu próprio banco de dados de membros que se baseia no projeto  Coral, uma plataforma de comentários de código aberto, enquanto o Bristol Cable está desenvolvendo um novo software para atender a essa necessidade. É importante ter uma maneira de acompanhar quem participa, para que assim você consiga reconhecer de forma consistente quais são as contribuições dos membros do público.As oportunidades de participação podem entrar em conflito com normas culturais ou com o que é considerado seguro. Como mencionado anteriormente, muitos dos conselhos do MPP se baseiam na premissa de que é seguro para um meio de comunicação ser transparente sobre os temas da sua cobertura jornalística e sobre quem trabalha na sua equipe, e também pressupõem que os membros da audiência desejam ser identificados como tal. Esse não é sempre o caso. O Malaysiakini precisou encontrar uma forma de equilibrar o desejo de engajamento de seus leitores fiéis com o medo de serem identificados como membros, por exemplo. Eles permitiram comentários anônimos para que as pessoas se sentissem seguras ao postar na Comunidade Kini.

 

Por que o Malaysiakini combinou um programa de membros com assinaturas?

Diante dos ataques do governo, o Malaysiakini entendeu que o status de 'membro' poderia deixar algumas pessoas nervosas. Eles sabiam, contud

O Membership Puzzle Project explora esses assuntos em maior profundidade em “Como integrar os membros ao seu jornalismo” (inglês, espanhol).

Como podemos nos abrir à participação em assuntos delicados?

As formas de trabalho dos membros exigem que as redações sejam cuidadosas ao avaliar os limites entre a transparência e a criação conjunta. É necessário proteger a integridade de seu trabalho, de sua equipe e a segurança e o bem-estar dos participantes do programa. Haverá matérias que você fará que não são adequadas para essa forma de trabalhar, e não há problema algum nisso. Por exemplo, a cobertura de um assunto sigiloso transmitido por uma fonte ou a cobertura de um ataque a tiros podem não ser a melhor oportunidade para a colaboração.

As redações buscam diminuir os riscos dos membros do público envolvidos em reportagens de várias maneiras. Estas incluem exigir que os membros do público assinem memorandos de entendimento e concordem com embargos, como o faz o Bureau Local. O Reveal, no Center for Investigative Reporting, incluiu um processo de verificação em duas partes para a série “Detetives de Ódio”, na qual voluntários ajudaram a localizar e rastrear o discurso de ódio na internet. A verificação incluía preencher um formulário no Screendoor e enviar uma cópia da carteira de identidade. 

É possível envolver os membros do público em uma parte de uma reportagem investigativa, sem no entanto revelar a história inteira. Você pode publicar uma convocação pedindo para os membros da audiência compartilharem uma experiência de discriminação, sem revelar que, por trás disso, está investigando uma dica de uma fonte sobre o mesmo assunto. Sempre se pode limitar a participação do público à fase de pós-publicação. 

Se você está convidando as pessoas para se envolverem com o seu veículo, ele precisa ser um lugar seguro para elas. Isso significa ter facilitadores e / ou moderadores presentes para o caso de eventuais conversas hostis, dispor de diretrizes claras na comunidade e também de um plano para aplicá-las, se necessário. 

A equipe da Black Ballad, no Reino Unido, conversa com as participantes de seu programa de membros em um grupo fechado no Slack. Isso limita o alcance das conversas e quem pode estar nelas, mas também garante que a comunidade da organização — formada principalmente por mulheres negras britânicas — está protegida do tipo de abuso que vivencia em outros lugares na internet.

Se você começar a sistematicamente rastrear informações sobre a participação do público, é importante ser transparente sobre isso. Uma maneira simples de lidar com isso é perguntar ao público: “Você estaria disposto a ser contatado novamente sobre esse assunto no futuro? Talvez a pessoa da minha organização seja outra, mas não compartilharemos essas informações além de nossa equipe”. Você deve manter registrado em seu sistema interno quem é o ponto de contato com aquele membro, para que outros integrantes da equipe saibam quem deve abordar cada pessoa.

A segurança digital também é fundamental. Esta não é a área de especialização da nossa equipe de pesquisa. O MPP sugere a lista de recursos da Global Investigative Journalism Network, bem como para o Kit de Segurança Digital do Committee to Protect Journalists.

Como podemos garantir que não temos uma abordagem extrativista?

Os membros do seu público não são seus voluntários, eles são seus colaboradores. Suas contribuições não são mão de obra gratuita, mas sim uma barganha na qual os dois lados dão e recebem. As oportunidades de participação devem ser mutuamente benéficas, e os colaboradores devem receber um reconhecimento significativo por sua ajuda. Sem isso, você corre o risco de deixar os membros da audiência se sentindo usados ​​e ainda mais desconfiados de seu veículo do que eles fariam se você não os convidasse para participação alguma. 

Além de prestar atenção às motivações do público em seu planejamento, o simples ato de fazer algumas perguntas no início de seu trabalho com o público pode ajudar muito para estabelecer um relacionamento mutuamente benéfico:

  • O que podemos ajudá-lo a fazer?
  • Como podemos oferecer aquilo de que você precisa? (como softwares, treinamento ou espaço físico para trabalhar; o CORRECTIV, na Alemanha, fornece aos seus verificadores de fatos um endereço de e-mail da empresa para o trabalho).
  • Como podemos respeitar o seu tempo?
  • Como você quer ser reconhecido?

Algumas organizações oferecem uma adesão gratuita para membros da audiência que contribuem, ou então incluem as suas assinaturas na publicação final. O City Bureau, o CORRECTIV e o Bureau Local oferecem não apenas oportunidades de participação, mas também de treinamento, o que expande a oportunidade para aqueles que ainda não possuem as habilidades necessárias, mas estão ansiosos para aprendê-las. O CORRECTIV paga a seus verificadores de fatos de € 50 a € 70 para cada artigo que eles verificam (em agosto de 2019), e o City Bureau paga a seus documentadores (os “documenters) US$ 16 por hora para documentarem reuniões públicas (e oferece uma taxa se a reunião for cancelada).

guia para reportagens menos extrativistas da Universidade de Wisconsin apresenta 12 regras para repórteres que se envolvem com membros da comunidade. De “Saiba o que você e seu meio de comunicação trazem para a mesa (para o bem ou para o mal)”, até “Como abordar as lacunas de informação das fontes de maneira adequada”, essas regras são facilmente adaptadas para o jornalismo colaborativo.