Quais são os desafios para criar rotinas de membros?

As rotinas de membros produzem valor real para o seu veículo e para o seu público, mas não agregam valor inerente a todos os esforços do jornalismo e nem sempre são realistas. 

Elas exigem um tempo significativo de sua equipe. Trabalhar com estas rotinas demanda muita mão-de-obra. Você deve ser específico quando decidir onde e como vai investir os seus esforços direcionados a membro, e deve ter um plano para avaliar posteriormente se esses esforços valeram a pena; deste modo, no futuro você terá orientações que auxiliem suas decisões. Em “O que se perguntar antes de iniciar um projeto de crowdsourcing?”, a ProPublica compartilha quais questões de avaliação interna faz. A rádio KPCC, nos Estados Unidos, registra em seu Sistema de Gestão de Conteúdos (CMS) todas as matérias que surgiram a partir de uma pergunta do público, e estuda como elas se saíram após serem publicadas, para avaliar quais matérias tiveram melhores resultados.

As rotinas podem exigir mais tempo do que os membros do seu público estão dispostos ou são capazes de oferecer. A participação do público consome muito tempo, e possivelmente a oportunidade de participação que você concebeu demanda demais. Isso não significa que você precise desistir completamente da iniciativa, mas talvez seja necessário reduzir o tamanho do projeto, como fez  o El Tímpano, nos Estados Unidos, quando os participantes comunicaram que um conselho consultivo para a comunidade era um compromisso além do que poderiam fazer. No lugar do conselho, o El Tímpano passou a promover reuniões editoriais públicas trimestrais. 

As rotinas exigem capacidade de gerenciamento de projetos e de suporte para o trabalho em todos os níveis do seu veículo. Esta forma de trabalhar exige formas de colaboração que perpassam várias funções dentro da sua organização e também incluem colaboradores externos. Muitas organizações de notícias ainda estão estruturadas para produzir uma matéria desde a sua concepção até a sua distribuição, o que não é adequado para esse processo. Um repórter comprometido pode facilmente incorporar rotinas de membros à sua cobertura (veja a pesquisa do MPP sobre o que significa ter membros durante uma cobertura), mas levar rotinas de membros a toda a organização requer investimentos em todos os níveis.

Elas exigem habilidades sociais para as quais muitos jornalistas não receberam treinamento. As habilidades necessárias para cobrir as notícias de última hora são muito diferentes das habilidades necessárias para comandar um auditório ou entender o que motiva os membros da comunidade a participar. O DoR, na Romênia, trouxe especialistas para treinarem a sua equipe como facilitadores, moderadores, mediadores e ouvintes durante a sua transição para um programa de membros. 

Os leitores podem pedir demais. Às vezes, os leitores exageram. Eles entendem mal até onde o seu envolvimento é aceitável. Eles começam a achar que os seus repórteres são resolvedores de problemas pessoais, e começam a esperar que todas as matérias confirmem as suas opiniões. O seu veículo deve ter uma política institucional e oferecer treinamento sobre como lidar com essas situações.

Envolver-se profundamente com os membros do público pode ter um impacto emocional. Os coordenadores devem prestar atenção se um envolvimento tão profundo com os membros do público está afetando a equipe. A KPCC, em Los Angeles, recebeu milhares de perguntas durante o pico da pandemia do coronavírus, muitas delas sobre assuntos difíceis, como morte e desemprego. A KPCC criou escalas nas agendas dos produtores de engajamento para dar intervalos entre turnos emocionalmente intensos . 

Algumas oportunidades de participação podem entrar em conflito com as diretrizes sindicais. Se você trabalha em uma redação sindicalizada, há diretrizes claras sobre o que os voluntários podem fazer. De modo geral, você não pode trazer mão de obra gratuita para fazer algo que um membro da equipe faria normalmente. Sempre verifique com o representante sindical de sua redação antes de pedir a participação do público de uma nova forma.

As rotinas de membros exigem novas maneiras de monitorar seus membros. Veículos como o De Correspondent, a Maldita, o Página / 12, o Krautreporter e o Bristol Cable mantêm cadastros das áreas de especialização de seus membros para que possam contactá-los a qualquer momento. Cada um desses meios desenvolveu o seu próprio sistema: o Página / 12 construiu seu próprio banco de dados de membros que se baseia no projeto  Coral, uma plataforma de comentários de código aberto, enquanto o Bristol Cable está desenvolvendo um novo software para atender a essa necessidade. É importante ter uma maneira de acompanhar quem participa, para que assim você consiga reconhecer de forma consistente quais são as contribuições dos membros do público.As oportunidades de participação podem entrar em conflito com normas culturais ou com o que é considerado seguro. Como mencionado anteriormente, muitos dos conselhos do MPP se baseiam na premissa de que é seguro para um meio de comunicação ser transparente sobre os temas da sua cobertura jornalística e sobre quem trabalha na sua equipe, e também pressupõem que os membros da audiência desejam ser identificados como tal. Esse não é sempre o caso. O Malaysiakini precisou encontrar uma forma de equilibrar o desejo de engajamento de seus leitores fiéis com o medo de serem identificados como membros, por exemplo. Eles permitiram comentários anônimos para que as pessoas se sentissem seguras ao postar na Comunidade Kini.

 

Por que o Malaysiakini combinou um programa de membros com assinaturas?

Diante dos ataques do governo, o Malaysiakini entendeu que o status de 'membro' poderia deixar algumas pessoas nervosas. Eles sabiam, contud

O Membership Puzzle Project explora esses assuntos em maior profundidade em “Como integrar os membros ao seu jornalismo” (inglês, espanhol).